Beatriz,
Entenda isso como um incentivo à você mesma.
É hora de você conhecer a si mesma, procure se entender.
Desabafe, chore, grite, seja sua própria melhor amiga!
Com carinho,
Silvana
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27 de Janeiro de 2009
Hm.
Ok.
Vou tentar não transformar isso num romance melodramático protagonizado pela Keira Knightley, muito menos numa autobiografia sedenta de compaixão.
Como é difícil começar um diário… minha psicóloga me deu esse caderno, encorajou a começar isso mas sinceramente eu não sei se é uma boa idéia. Sei lá, essa coisa de perder tempo escrevendo uma coisa que ninguém vai ler… meio inútil, me parece.
Sou mais um blog, entende? Pelo menos eu desabafo lá e alguém vai ler e me entender, me ajudar. Não que eu vá desabafar da mesma forma que eu faria se ninguém lesse… mas bem, o caso é que é melhor eu dar um tempo com essa blog, só por isso estou dando essa chance para esse caderninho.
Estou com muitas dúvidas quanto essa coisa toda, será que eu deveria me apresentar?
Hm. Prazer?
Certo.
Oi, meu nome é Beatriz, tenho 15 anos, sou uma romântica demais, estudiosa de menos, lesada, e totalmente dependente de computadores e tecnologias em geral. Cinéfila sem salvação, roqueira de sangue.
Como vai você?
Oh.
Não creio que eu fiz isso!
Entende agora porque eu preciso de um psicólogo?
Acho que eu devia seguir o conselho que ela me deu ontem e começar contando como é que eu fui parar lá. Hãn, calma ai. Ela mandou eu gritar comigo mesmo? Como pode? OH! Acho que não sou eu quem precisa de tratamento afinal de contas…
Eu sei que eu sou louca, converso com objetos, só me ferro, to sempre pagando mico, devia estudar mais, parar de acreditar tanto em tudo que me dizem e talvez até aprender a ser mais sociável mas também não dá pra simplesmente começar a te uma briga de gato comigo mesma, não é?
Ok, ok. Sei que talvez ela tenha razão e isso me ajude a entender tudo o que ela fica repetindo para mim nas seções “A vida não é um conto de fadas”, “Sonhar é bom, mas é melhor manter os pés no chão”. Uhum, eu sei, juro que sei. Não vou encontrar alguém que só de olhar meu coração vai saltar pela boca e vamos casar no dia seguinte então vamos ter a câmera se distanciando de nossos rostos se beijando na festa e irá surgir aquelas letras detalhadas “E eles viveram felizes para sempre.”. Já disse que sei que não vai acontercer…
Compaixão. Hm. Compaixão. Compaixão. Compaixão. Compaixão.
Estou praticamente implorando.
Hora de mudar de estratégia.
Situando as queridas e novinhas folhas em branco sobre o caos da minha complicada vidinha de adolescente classe média.
Como eu já disse, meu nome é Beatriz, eu faltam apenas três dias para eu entrar no no 2º ano colegial, estou tão empolgada, dizem que o segundo é o melhor de todos, sabe? Espero que seja mesmo!
Uma das minhas melhores amigas é a Priscila, nos conhecemos desde pequena lá pela 2ª série, e nos separamos, e desde o 1º colegial somos super amigas. Aliás, daqui a pouco ela deve estar chegando. Combinados de assistir Desejo e Reparação aqui em casa para fechar com chave de ouro as férias, a até porque ela estava viajando e não sabe de nada do que me aconteceu em dezembro e janeiro. Que absurdo para uma melhor amiga, huh?
Por falar nela, acabei de receber uma sms dela:
Bee,
To quase saindo de casa, quer que eu leve pipoca? Bjos
Espere um minuto diário, tenho que responder.
Voltei, mas então, o meu grande problema, era sobre isso que eu ia falar? Bom, se não era, agora é. Eu fui parar na Silvana por um simples detalhe assim, uma coisa que acontece com qualquer boa cinéfola hollywodiana, um coração partido.
Claro, com milhares de horas de romances água-com-açúcar, mais alguns quilômetros de contos de fadas contemporâneos e muito música emo no meio do caminho o que mais se podia esperar além disso?
Óbvio que apesar de eu tentar, eu não consegui fugir do padrão ou seja… tempo para pensar…
Tic, TAC. Tic, TAC. Tic, TAC. Tic, TAC.
E… BIM BIM BIM BIM. Temos um vencedor.
Logo eu, me apaixonei pelo jogador de basquete, mais velho, um dos mais populares da escola, sarado, olhos claros, loiro, bonito, com várias menininhas mais bonitas, mais peitudas, mais experientes e até mais velhas louquinhas por ele, quase formando uma cachoeira de baba quando ele passa com aquele ar despreocupado e aquele cheiro de 212 sexy for men que incendeia a escola inteira a partir do momento que ele desce do carro.
Não, eu não estou apaixonada pelo Troy Bolton! Você anda vendo High School Musical demais.
Vou me matar. Esse diário era pra ser sobre a minha pessoa, o meu problema, e até aqui eu consigo ficar enchendo a bola dele. Como se ele precisasse de mais silicone no ego. Eu realmente não devia. NÃO DEVIA. Não depois de tudo que aconteceu… eu tenho… tenho que esquecer ele. ESQUECER. Entende?
Não, claro que você não entende, não sabe o que aconteceu! Como eu queria que você me entendesse sem saber todos os mínimos detalhes de como ele destruiu a minha vida inteira, estilhaçou em 315 mil pedaços, depois cuspiu em cima e jogou na privada.
E não me olhe assim, toda branca e pomposa! Sua página boba! Eu não estou implorando por compaixão, ouviu? Só diz isso porque nunca se apaixonou! (apesar de que esse caso com a minha caneta está cada vez mais sério… e preocupante!)
É por essas e outras que eu gosto de blogs! Blogs não tem caso com ninguém, eles não zombam de mim – exceto a escola inteira quando descobriram o endereço, mas isso não foi bem culpa do blog em si.
Pois é ai que começa a minha tragédia, senhoras e senhores. Talvez… um pouco antes… numa bela tarde de sol. Por que apesar de eu estar possessa de raiva, com vontade de derrubar tudo que eu via pela frente, o dia realmente estava bem bonito.
E eu não sou louca, eu apenas esqueci a chave de casa e minha queridíssima irmã foi embora mais cedo, resolveu dormir, não atender o telefone e como conseqüência, impedir a única maneira que eu tinha de entrar em casa antes de minha mãe voltar do trabalho! Nessa época eu tinha 14 anos, e eu estava terminando o 9º ano.
Portanto não me restou nada para ser feito além de procurar algo útil lá pela escola mesmo, ou seja, nada melhor do que ir babar nos rapazes do colegial que estavam habilmente treinando na quadra, com aquele sol escaldante (leia-se: sem camisa). Deu pra imaginar a cena? Não digo, de verdade.
Uuuuuuuuuuuuuuuuuuuh!
Vai querer me dizer que não é uma ÓTIMA opção para passar o tempo?
Claro que na hora eu não pensei que esse pecadinho ia estragar uma metade da minha adolescência e dificultar a outra. Babar nos veteranos suados me pareceu que era melhor opção do que tentar entender matemática.
Até aquele momento… o mesmo que eu vi ele. Naquele físico de um deus grego, naquela intensa relação, eu fiquei pálida, bêbada e tremi, me afoguei e me sufoquei, entre a loucura e paixão.¹
Pedro Bandeira que me perdoe, mas nada melhor que seus versos para descrever como eu me senti naquela hora.
Os lábios dele era perfeitamente rosados e estavam com um destaque ainda maior por culpa do exercício, seu cabelo era um pouco desgrenhado de um castanho misturado com louro dourado que me lembrava o Jude Law, os fios estavam perdidos pelo seu rosto e alguns grudados com o suor.
E claro, um dos detalhes mais importantes: ele estavam sem camisa, apenas com a bermuda azul do colégio e, honestamente, não dava pra ficar mais lindo(riscado). FEIO, quis dizer feio.
Eles não estavam jogando, era tipo um treino, em duplas eles passavam a bola um pro outro, driblavam, ou sei lá como se chama isso no basquete, e arremessavam para a cesta. Sentei numa sombra, perto do canto da quadra e tirei um livro qualquer da mochila – afinal, eu não podia dar pinta de que estava ali para checar o nível de testosterona alheia.
Comecei a acompanhar o treino (cof cof, o loiro) por cima do livro e comecei a enumerar todos os defeitos do rapaz. Lembro de ter rido do cabelo dele e de seus pés “dez pra uma”.
Mas tudo isso não passava de uma árdua batalha interna que eu estava passando por que bem no fundo, eu não sabia bem como, mas ele conseguia ser mais bonito que o alienígena que é a mistura do Johnny Depp, Gene Kelly e Chad Michael Moore e que adora me visitar enquanto eu durmo.
Sim! Ele conseguia ser mais lindo que o cara dos meus sonhos! Era tipo algo inacreditável, e a dimensão da minha batalha só aumentava enquanto eu ouvia as patricinhas plásticas² todas delirando a cada passo dos jogadores e praticamente berrando numa falsa conversa entre si que eles era lindos, gostoso e blá blá blá, quanto hormônio!
Simplesmente não dava para aceitar gostar da mesma coisa que elas, elas são tão… tão… ew. Hahaha, ew é a melhor palavra, com certeza, é pequena, o suficiente para elas entenderem e ainda não gasta muitas letras do alfabeto.
Bom pra resumir o meu drama exagerado eu fui embora mais ou menos uma hora depois, quando a bela adormecida lá de casa finalmente atendeu o maldito telefone e me ligaram avisando que eu finalmente poderia ir pra casa.
Mas você acha que foi isso e pronto? Claro que não, né? Nossa, o que ele me causou depois daquele dia é de arrepiar (literalmente). Distúrbios, ondas de calor, pensamentos indevidos, sonhos acordadas (ou não), falta de concentração e suspiros. Tudo isso de forma constante, alternada e em várias intensidades, o resto dia todinho.
Como alguém, honestamente, pode pensar na prova de álgebra e geometria estando em estado de tal calamidade? Não sei quanto a você, mas eu definitivamente estava incapaz.
Por culpa disso, como boa adolescente que sou eu culpei a minha irmã por eu ter ido mal na prova e ainda difamei a imagem da criatura para todas as minhas amigas.
Por um bom tempo praticamente montamos um clube “anti-cara idiota do basquete.”. Não que elas já tivessem visto ele pela escola, ou que soubéssemos o nome do pobre ser… mas estava tão divertido imitar as plásticas fazendo “uhs” e “ahs” para cada movimento dele.
Risadas foram muitas, e aí claro que surgiu o desafio de descobrir o nome dele, quem era, com quem andava, o ano que ele estava, o RG o tipo sangüíneo, e não que fosse importante, mas era um dos itens, tínhamos que saber qual das patricinhas ele pegava (não que tivéssemos algum interesse, lógico, mas é sempre bom saber para aumentar o leque de piadas…).
As vezes nos queríamos que existisse um “Gossip Girl”³ da nossa escola. Até já chegamos em pensar em nós mesmas montarmos um, mas desistimos logo em segiuda. Dois motivos básicos:
1 – Nunca sabemos de nada do que está acontecendo. (Grande motivo pela qual queríamos o site.)
2 – É bem mais divertido ler as fofocas do que escrevê-las. (Ainda mais se tivermos que descobri-las.)
O grande Q desse desafio foi que tínhamos pouquíssimos dias para concluir, as aulas estavam no fim e nas férias eu praticamente só vejo pessoas do colégio quando tenho a infelicidade de encontrá-las no shopping e não dá pra descobrir coisas assim num shopping cheio de gente. (assim como eu falei parece que é difícil, mas na verdade eu vejo sempre porque elas estão sempre lá, morar em cidade do interior é uma coisa que…, vou te dizer.).
Dois dias depois da nossa super caçada começar eu não me lembro bem o por que… aliás não faz nem muito sentido, mas quem disse que minha vida teria que seguir um senso? De qualquer forma, nós acabamos decidindo tomar nosso lanche na quadra. BINGO. Não é que o safado se escondia lá o tempo inteiro?
Com certeza nunca existiu um intervalo mais repleto de descobertas que aquele. Bruno. Era esse o nome do infeliz que definitivamente conseguia ser mais bonito que o meu príncipe encantado. Como se não bastasse ser lindo, sarado e ter todas as garotas aos seus pés, ele ainda era amigo do Daniel e do Fernando.
Sinto que agora eu devo apresentar esses dois projetos de seres humanos.
Daniel e Fernando, para eles fazerem mais sucesso só se formassem uma dupla sertaneja, bem, até que era quase isso. Esses dois tinham uma banda, de rock e tals, mas nem é tão boa (não, honestamente, de rock eu entendo). A banda deles toca em todos os eventos da escola, e eles, bom, eles não são feios, e com essa coisa de música e tal a escola toda com essa coisa de Maria-paleta…
Ta, tá, tá. Eu falo.
Eles são lindos, sarados e talentosos.
Tudo isso só explica como o Bruno acabou no centro das atenções de todas as garotinhas em questão de segundos. Daniel e Fernando são tipo os caras mais desejados, todas as meninas sonham com eles, e digamos que eu peguei um certa birra por eles…
Não, eu não era afim deles, eu não tenho birra com eles por que eu fui rejeitada.
Tenho porque a Priscila foi.
É EU TOMEI AS DORES DAS MINHAS AMIGAS, VAI ME CULPAR?
Calma, foco Beatriz, foco. Estou fugindo do assunto não estou? A questão aqui é o Bruno, não a paixão incessante da Priscila pelo Fernando.
Voltando ao que não importa: lá na quadra, eu fiquei meio pasma quando eu finalmente encontrei o aquele ser que a gente todo dia tirava um sarro. A minha cara deve ter chamado atenção, porque a Maria Irrita, ops, quer dizer, a Maria Rita, cof cof, veio falar com a gente. Ela está um ano a frente, é filha de uma professora e não tem muitos amigos e por alguma razão estranha ela conversa com a gente e tipo…
Se dividirmos a escola em classes sociais, eu e minhas amigas estaríamos na classe B, daquelas que ninguém nota até que façam merda, ou subam de classe, mas que são extremamente importantes para o bom funcionamento do sistema. Afinal, sem nós, quem falaria da classe A? Já a Maria Irrita…. bom, ela estaria na classe D. Aquelas que são extremamente importantes para manter a graça da classe A, por que com pessoas como ela as piadas nunca acabam.
É. Eu também tinha dó da criatura. Até que ela veio falar comigo.
Juro que naquele momento trocamos os papéis, como uma pessoa como ela poderia saber tanto da vida da classe A? Foi como se estivéssemos com uma plaquinha “Desejamos conhecimento sobre a vida do atleta sarado ao lado do Daniel.”.
É, deus, ela veio com um “ejetar” ligado. Ela simplesmente copiou e colou tudo o que ela sabia sobre ele num monólogo esquisito que ninguém sabe da onde veio. Foi algo mais ou menos assim;
“O Bruno, é, aquele do lado do Daniel, sabe, ele entrou aqui no começo do ano – honestamente, era um Zé ninguém – também não entendi como ele começou a andar com o Daniel e o Fernando e agora todas as garotas são apaixonadas por ele.”
(Uma pausa estratégica para olhar para ele, e depois para as nossas faces de pleno espanto.)
“Ele está na minha sala, e é um total porre. Mas sabiam que ele deu em cima de mim no começo do ano?”
(Típico. Ela é cheinha, estranha, não sabe se maquiar direito e não fala com ninguém, mas SEMPRE acha que estão todos dando em cima dela, deve ser a falta de convívio social que deu a ela esses tipos de fantasias…)
“Ele veio com um papo de que queria meu caderno de história pra estudar, mas eu saquei tudo o que ele queria.”
(Pobre criatura…)
“Faz tipo uns dois meses que ele tem andando com o Daniel, mas faz acho que umas 3 ou talvez 4 semanas que ele realmente tenha sido levado em consideração. Sabem, ele entrou pro time de basquete e andou aparecendo sem camisa. S-A-R-A-D-O. É, tem que soletrar se não vão sacar que estou falando dele.”
“Porque vocês sabem, Daniel e Fernando são, definitivamente, um cartão para a popularidade, mas não adianta nada se você for feio que nem o Lucas. O coitado é o eterno step das bêbadas e drogadas de mais.”
(Completamente certa.)
“Bom, mas o Bruno de fato se mostrou qualificado. Ele não é muito pegador… ainda. Ficou com poucas, mas deu em cima de várias. Já falei que ele deu em cima de mim? Veio com um papo nada a ver, mas eu peguei na hora.”
(Pulando para a parte que interessa.)
“Ele tem 15 anos, ou acabou de fazer 16… dessa parte eu não tenho certeza. O importante é que ele nem é tão bonito assim, mas quem não queria ter um tanque daqueles em casa?” – Insira risada escandalosa e desnecessária aqui. – “Aí está acontecendo uma espécie de revolução por aqui, pelo que notei, todas as meninas que já foram apaixonadas pelo Daniel, ou pelo Fernando, todas que já foram rejeitadas, de qualquer forma, estão caindo matando em cima desse Bruno.”
“Uma coisa é certa, esse aí ainda vai dar o que falar.”
É, foi assim mesmo que ela terminou o monólogo dela, não que ela quisesse de parar de falar e tivesse ido embora, mas o sinal tocou e usamos como desculpa para sair correndo dali.
Pelo menos de uma coisa tinha sido útil: definitivamente sabíamos quem era o cara.
A PRI CHEGOOOOOOOOOOOOU!
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¹ – Adaptação do poema de Pedro Bandeira, do livro A Marca de uma Lágrima – Editora Moderna, 1985. São Paulo.
² – Referência ao filme “Meninas Malvadas”, o grupo elite do filme conhecida como as “Plásticas” ou “Patricinhas”. ³ – Referência à série de livros Gossip Girl de Cecily von Ziegsar. O livro também gerou uma série transmitida no Brasil pela Warner Channel que ficou muito popular em 2007.
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N/A: Esse é o primeiro capítulo. Espero que gostem, comentem, opinem, eu não mordo, podem falar tuuudo o que acharem, ok?
Beijinhos.